17 de fev de 2015

Empáfia

Estávamos saindo da lancheria, desviando da rota apressada das pessoas na calçada.
Me recordo de perceber os lampiões na frente das lojas, uma carroça puxada por um homenzinho de jaleco, mas também lembro de decidir não estranhar aquilo.
Atravessamos o estacionamento e nos afastamos um pouco até uma encruzilhada.

Subitamente, um dragão dourado apareceu no nosso caminho."QUEM ADENTRA EM MEUS DOMÍNIOS?" gritou em sua voz de trovão. Com sua enorme pata ele agarrou minha namorada, trazendo pra perto de sua carranca assustadora. Peguei minha funda e acertei seu olho com um pedrisco. "EMPÁFIA! INFÂMIA! QUEM OUSA ME ATINGIR?" A besta, num impulso de raiva, nos arremessou pra longe com sua pata livre. "É agora que vamos ser devorados" pensei.

Rápido como a brisa, meu amigo subiu por sua cauda escamosa até sua cabeça e sussurrou em seu ouvido: "somos amigos de Lia". "LIA?" - disse a fera - "MAS POR QUE NÃO DISSERAM ANTES?" - largando a menina com delicadeza. "ESSA FLORESTA É PERIGOSA, PEQUENINOS, TENHAM MUITO CUIDADO. VENHAM POR AQUI"



Ilustração Mark Jackson

6 de nov de 2011

Córrego

Tremor de um vulcão dentro de minhas vísceras. Lava borbulhando numa incandescência azul.
Eu, gigante, afasto as montanhas com meus braços. Cerro as unhas nos azulejos dos penhascos enquanto planetóides de gelatina orbitam ao redor dos meus oito olhos (todos fechados exceto um).
O vulcão irrompe de meu peito parindo um córrego cristalino, um acorde menor e três diminutos dragões, todos com asas de colibri.


1 de ago de 2011

Artefato

Tinha algo errado, sabia que tinha. Olhava meu reflexo no espelho e tinha algo errado.
Talvez eu estivesse um pouco mais magro, ou serão as olheiras? Ou minha pele com mais manchas. Eu já tinha essa verruga antes? Difícil ver na luz fraca da incandescente nua pendurada pelo fio retorcido. Será posssível que eu estou mais... desfocado?

Foi por causa daquilo. O artefato. Estava lá no lixão, como me disseram. Era perigoso, um cara que foi lá e voltou diferente, não quer falar sobre isso de jeito nenhum. Outro que dizem que passou lá perto, não dorme mais à noite, tem uma febre que não passa. Uma guria que foi lá e nunca mais foi vista.

Fui até lá. Depois que ultrapassei os escombros... nem sei descrever o que vi. Acho que meus olhos não foram capazes de conceber sejá lá o que fosse aquilo. Lembro apenas do vulto negro vagamente ovóide, manchas no meu campo de visão como interferências, frenéticas como abelhas, o zumbido insuportável.

Vomitei imediatamente e vim cambaleando para casa. Nem sei por que ruas passei.

Agora estou aqui, nesse banheiro minúsculo, na frente desse espelho mofado, um gosto amargo na boca, tentando me enxergar, não importa o quão amarela seja a luz ela não consegue vencer o turquesa desbotado do cubículo. E eu sei que vou morrer.


Devorador de dragões

O dragão - besta majestosa - espreita,
acomoda suas asas da cor do poente,
aguarda.
À distância, vê o reflexo iridescente das escamas do outro dragão.
Ataca, cerra suas mandíbulas na cauda da fera, sangue prateado resvalando entre suas presas.
A fera revida.
Ouroboros duplo, cinta de Möbius, os dois monstros dançam pelo céu noturno devorando um ao outro.
E as montanhas tremem.


31 de jul de 2011

Encontro

O pôr do sol ofuscava minha visão, não dava pra ver direito, mas aos poucos eu fui identificando as silhuetas, de mãos dadas: de sobretudo, o rapaz alto de cabelos crespos; a moça também alta, de cabelo preso num coque e, entre ambos, a guriazinha. Quando eles chegaram perto, vi que ela estava com uns 10 anos, longos cabelos castanhos, levemente ondulados, enormes olhos claros, melancólicos. Quieta e educada. Linda.

Estava caminhando pelas ruas mais desertas da cidade, em direção ao norte, quando eles me encontraram.

"Tragam seus mortos, tragam seus mortos" ele disse, empolgado. "O quê?" "Ali, na Santa Casa, eles estão fazendo um velório coletivo. A gente pode levar todos os nossos mortos, estamos indo lá em casa pegar os nossos, quer vir junto?"


29 de jul de 2011

Aniversário

Tinha o meu primo mais novo. Tinha aquela coleguinha de aula que é irmã da namorada do meu primo mais velho. Tinha aquele guri que mora ali dobrando a esquina. Tinha outras crianças. E tinha eu. Aniversário de gente adulta, os convidados chegando lá na frente. A gente brincando lá no fundo do pátio, na volta do buraco que foi um dia o banbuzal. Quando eu era ainda menor, achava que todo o vento do mundo - e as vozes que o vento trazia - vinha do bambuzal. Eu tirei meu olho direito. Virei ele do avesso e coloquei de volta no buraco. Quando mimha mãe viu, gritou: "guri, já te falei: coloca esse olho no lugar, olha as visita!"


27 de jul de 2011

Febre


1
Guria sentada sobre um enorme balão de aniversário, abraçando os joelhos. Infinitos balões flutuando, multicores. Em cima de um deles, há um demoninho. Por mais que tente, a guria não pode vê-lo.
2
Homem diminuto corre ofegante, em pânico, sobre a superfície branca do criado-mudo. Ultrapassa o abajur branco, do tamanho de um arranha-céu. Algo está atrás dele, e vai pegá-lo. Ele tropeça na beira do precipício e cai, em câmera lenta, em direção ao impecável chão branco. Quando o atinge, ele não se espatifa, mas o chão ondula, e uma hedionda mancha negra nasce. Mancha enrugada. A sujeira, a sujeira, se espalhando pela imensidão outrora branca e imaculada.
3
O guri se levanta no meio da noite. Cambaleante, tonto, cabeça dói, ventre dói. Ele vai ao banheiro. O Estômago se revolta. Quando ele retorna, a garganta ainda machucada pelo ácido gástrico, percebe que alguém teria decorado todo o teto da casa com bandeirinhas. Centenas de bandeirinhas coloridas de São João.
4
Um lençol estampado. Para cada direção que ele se volta, vê o desenho que se repete: o busto de um homem, de terno e gravata, com a cabeça explodindo em pedaços.
5
O rapaz entra num subsolo, uma longa galeria mal iluminada. Lado a lado, enfileiradas, máquinas de um desenho antiquado. Quando ele se aproxima de cada uma delas, produzem um número. Conforme ele segue pela galeria – e ele sabe que vai ser cada vez mais difícil voltar – as máquinas ficam cada vez mais sujas e engorduradas. E os números que produzem mais assustadores.