31 de jul de 2011

Encontro

O pôr do sol ofuscava minha visão, não dava pra ver direito, mas aos poucos eu fui identificando as silhuetas, de mãos dadas: de sobretudo, o rapaz alto de cabelos crespos; a moça também alta, de cabelo preso num coque e, entre ambos, a guriazinha. Quando eles chegaram perto, vi que ela estava com uns 10 anos, longos cabelos castanhos, levemente ondulados, enormes olhos claros, melancólicos. Quieta e educada. Linda.

Estava caminhando pelas ruas mais desertas da cidade, em direção ao norte, quando eles me encontraram.

"Tragam seus mortos, tragam seus mortos" ele disse, empolgado. "O quê?" "Ali, na Santa Casa, eles estão fazendo um velório coletivo. A gente pode levar todos os nossos mortos, estamos indo lá em casa pegar os nossos, quer vir junto?"


29 de jul de 2011

Aniversário

Tinha o meu primo mais novo. Tinha aquela coleguinha de aula que é irmã da namorada do meu primo mais velho. Tinha aquele guri que mora ali dobrando a esquina. Tinha outras crianças. E tinha eu. Aniversário de gente adulta, os convidados chegando lá na frente. A gente brincando lá no fundo do pátio, na volta do buraco que foi um dia o banbuzal. Quando eu era ainda menor, achava que todo o vento do mundo - e as vozes que o vento trazia - vinha do bambuzal. Eu tirei meu olho direito. Virei ele do avesso e coloquei de volta no buraco. Quando mimha mãe viu, gritou: "guri, já te falei: coloca esse olho no lugar, olha as visita!"


27 de jul de 2011

Febre


1
Guria sentada sobre um enorme balão de aniversário, abraçando os joelhos. Infinitos balões flutuando, multicores. Em cima de um deles, há um demoninho. Por mais que tente, a guria não pode vê-lo.
2
Homem diminuto corre ofegante, em pânico, sobre a superfície branca do criado-mudo. Ultrapassa o abajur branco, do tamanho de um arranha-céu. Algo está atrás dele, e vai pegá-lo. Ele tropeça na beira do precipício e cai, em câmera lenta, em direção ao impecável chão branco. Quando o atinge, ele não se espatifa, mas o chão ondula, e uma hedionda mancha negra nasce. Mancha enrugada. A sujeira, a sujeira, se espalhando pela imensidão outrora branca e imaculada.
3
O guri se levanta no meio da noite. Cambaleante, tonto, cabeça dói, ventre dói. Ele vai ao banheiro. O Estômago se revolta. Quando ele retorna, a garganta ainda machucada pelo ácido gástrico, percebe que alguém teria decorado todo o teto da casa com bandeirinhas. Centenas de bandeirinhas coloridas de São João.
4
Um lençol estampado. Para cada direção que ele se volta, vê o desenho que se repete: o busto de um homem, de terno e gravata, com a cabeça explodindo em pedaços.
5
O rapaz entra num subsolo, uma longa galeria mal iluminada. Lado a lado, enfileiradas, máquinas de um desenho antiquado. Quando ele se aproxima de cada uma delas, produzem um número. Conforme ele segue pela galeria – e ele sabe que vai ser cada vez mais difícil voltar – as máquinas ficam cada vez mais sujas e engorduradas. E os números que produzem mais assustadores.


Guerra Civil


A cidade estava em guerra civil. Voltei para a casa dos meus pais. Do lado esquerdo da casa, o meu lado, eu fechei todas as janelas. O lado direito, deles, elas estavam semicerradas. Eu espiava pelas frestas e pessoas corriam pelo meio da rua, com os braços levantados, sorrindo, maravilhadas. Porquê? A cidade estava em guerra civil!

Lá fora o dia era ameno, como uma tarde de primavera ou outono. Sol suave, céu azul, nuvens quase brancas. Meu pai, sentado na cadeira de praia colorida, com um rifle e caixinhas com munição - caso algum vizinho tentasse alguma coisa. Minha mãe, estendendo roupas no varal. "Isso aconteceu em Gorazde” – eu disse – “Numa noite, a guerra foi declarada. No dia seguinte, vizinhos que sempre foram amigos começaram a invadir as casas dos outros vizinhos. Religiões diferentes. Sobrenomes diferentes. Seus pescoços eram cortados e os corpos agonizando eram atirados da ponte. Porque as pessoas são assim?"

Decidi pegar um rifle. Nunca atirei antes. Fui colocar a munição, mas não achava o calibre certo. Não pode ser tão difícil, eu tenho que conseguir. Ainda sentado, meu pai mostrou os tipos de balas: “Tem essas, grandes, de metal e essas menores, de vidro. Eu estou usando essas seringas”. Ele nunca tinha me ensinado até então. Decidi treinar nos fundos da casa. Tenho que estar preparado, caso algum vizinho. Mas antes entrei na casa, pra espiar mais uma vez. As pessoas continuam correndo. Gargalhando e gritando histéricas. "A guerra, a guerra!" Só param pra chutar coisas no meio do caminho. Latas, sacos de lixo. Até quando? Quando vão começar a chutar pessoas?

No meio das pessoas, eu te vi. Cabelo curto, vermelho. Segurando uma bolsa. De salto alto. Feliz, com os braços levantados. Tu paraste quando chegaste perto de uma garrafa pet vazia e começou a chutar. "Ana? Até a Ana? Porquê, Ana? Quando essa guerra acabar, eu tenho que ter uma conversa séria com ela". Com sorte, declaram a paz logo logo antes que as pessoas comecem a matar.

Imagem Joe Sacco

Nodo

A vida gira em torno de escolhas.
Eu andava deliberadamente por ruas vazias, nos limites da cidade, perto de fábricas abandonadas. Eu procurava trancar as lágrimas que me brotavam dos olhos, apertava os lábios. Foi quando me lembrei de uma cena que vi havia um tempo.

...

Um dia - estava nublado, prestes a chover - eu vi uma moça em prantos, caminhando na rua, ela cobria o rosto com uma das mãos, sacudida pelos soluços. Não sei realmente se choveu ou se foi minha imaginação que reconstruiu essa memória assim, mas eu tenho a lembrança das primeiras gotas de chuva se mesclando com suas lágrimas. Uma cena tão filme europeu.
Aquele momento pra mim foi um nodo. Naquela situação, eu fiquei pensando o que aconteceria se eu fosse até ela e a abraçasse? Qual seria sua reação? Ela me rejeitaria, assustada? Ela encostaria sua cabeça no meu peito? Nós nos veríamos de novo? Eu poderia ajudá-la em seus problemas? Seria inútil? Eu traria mais problemas para minha vida?
Todas as possibilidades convergiam para aquele ponto e divergiam dele. Eu deixei os demais futuros possíveis para trás e tomei um deles. Fiquei observando-a se afastar, à distância.

...

E pensando nisso, eu, chorando, minhas lágrimas escorrendo até minha barba, eu sem me preocupar no que as pessoas estavam pensando, sem trancar mais as lágrimas. Entrei no ônibus, entrei pensando nas ações tomadas pelos outros e na inevitabilidade das decisões.


Alcatéia

Enquanto soprava o capuccino – pois um café nunca está suficientemente no ponto para mim, por mais que assopre sempre me queimo com o primeiro gole, o que me leva a perguntar por que eu ainda assopro o café e a única resposta que vêm à minha mente é: esperança – eu observava as pessoas do outro lado da vitrine do bar, passando apressadas, com seus cachecóis recém tirados do guarda-roupa, após um ano inteiro de desuso.

– Não quero parecer um resmungão – disse.

– Ah, qualé, pode falar – disse meu amigo, enquanto observava seu expresso. Ao contrário de mim, ele não parecia queimar-se com o café quente. Mas, como gosta de café frio, por algum motivo que faz algum sentido para ele, e só para ele, e por mais que explique não consigo entender, ele costuma demorar muito para começar a beber.

Fiquei em silêncio, segurando o caneco com as duas mãos, sem tirar os olhos da vitrine, assoprando em vão mais uma vez.

Quando tu começaste a correr com eles? – me perguntou. Ele é um bom amigo. Sempre sabe a hora exata de ser brincalhão, e a hora exata de ouvir. Sempre foi assim com a alcatéia e comigo. Como um protetor.

Bem, teve uma vez – comecei a responder – em que eu a encontrei na estação de trem. Ela estava meio lacônica, pois embora a gente more no mesmo vilarejo, fazia um bom tempo que não nos falávamos. Ela puxou assunto e respondi sorrindo. Acho que como ela viu que eu correspondi o interesse, se abriu e me convidou pra sair com o pessoal algum dia desses. “Uau”, eu pensei, “eu vou correr com os lobos”. Já fazia muito tempo que eu queria correr com eles. Embora nunca tenham escondido que eram lobos, as pessoas do vilarejo normalmente não comentam isso. Elas estão apressadas demais com suas vidas para prestarem atenção. “Eles são estranhos”, é o máximo que dizem.

“Tu já correste com lobos?” ela perguntou, como se estivesse lendo meus pensamentos. “Eu me transformo em um gato, um gato preto, nas noites sem lua” – respondi, meio constrangido, pois desde que descobri disso, poucas vezes falara com alguém sobre o assunto. Não é coisa que se diga no café da manhã, sabe?

– Sim, entendo – meu amigo disse, começando a beber seu café, a essa altura provavelmente morno.

Bem, continuando, ela me olhou com aqueles olhos furta-cor, meio violáceos, que eu podia ter jurado que fazia de propósito, mas agora eu sei que não, e me disse: “acho que tu vais gostar”.

Num fim-de-semana, eles me levaram até o santuário. Nos reunimos primeiro numa casa, fora da cidade. Era uma casa isolada, perto de uma campina, entre as coxilhas e as colinas distantes. O trem até lá demorava bastante, e só tinha uma linha que passava por lá. Se tivéssemos perdido aquele, só teria um no outro dia. Eu e ela fomos conversando, nos lembrando de todas as coisas engraçadas que já tínhamos visto. A paisagem era plana, como poucos lugares no planeta conseguem ser. Eu sempre digo: aqui é um lugar onde o horizonte é realmente horizontal!

– É verdade! – meu amigo concordou, com uma expressão de orgulho.

Chegando lá, estavam esperando os outros dois. Eu já os conhecia de vista mais nunca tinha conversado com eles. Um deles, o de olhos claros, esse tinha olhos estranhos também. Dependendo do jeito que a gente olhava para ele, ou do modo como a luz das velas refletiam, seus olhos mudavam de cor e às vezes parecia que também de forma, mas quando a gente olhava de novo, já tinha voltado ao normal. E sua voz parecia o farfalhar de folhas numa tarde de outono. O de olhos escuros, esse parecia ter olhos comuns. Mas eles eram silenciosos e profundos como os de um animal selvagem, e eu pensei que talvez os olhos dele também brilhassem, mas apenas durante a noite. Ficamos um tempão jogando conversa fora, comendo tudo o que tínhamos levado numa sacola e mais tudo o que tinha na despensa, se aquecendo no calor da lareira. É claro que na hora não me passou pela cabeça por que a lareira estava acesa e por que isso parecia tão gostoso, visto que na rua não estava nada frio. Então começamos a nos dirigir até a campina. O sol estava alto, e iluminava o verde que se estendia até se perder de vista e começava a se tornar azul-cinzento e depois azul-de-verdade. Após vencer o banhado que parecia brincar com a gente, fingindo não nos deixar ir adiante e libertando nossos pés em seguida, e de cruzar uma ponte incerta de troncos sobre um riacho, chegamos à clareira, protegida por uma fileira de eucaliptos que pareciam formar uma meia-lua.

Ficamos deitados na volta de um enorme tronco caído, conversando mais um pouco, cada vez mais baixinho, até que ficamos em silêncio. Em silêncio, deitados no capim, apenas olhando o azul-de-verdade. No meu campo de visão, via os galhos de uma árvore. Eles ondulavam com o vento suave. Pareciam acenar pra mim, preguiçosos. “Elas estão nos achando muito divertidos”, eu disse. “Quem?”, o de olhos escuros perguntou. “A árvores. Elas acham divertido nós estarmos aqui, deitados no chão. Como se fôssemos árvores também.” “Tu consegues falar com as árvores?” o de olhos claros perguntou. “Às vezes elas falam comigo. Fazia tempo que isso não acontecia.” E um tempo indefinido se passou, a gente respirando o ar perfumado pelos eucaliptos, absorvendo o calor do sol. Fechei os olhos por uns instantes, e quanto abri , olhei para o lado e vi.

Eram três lobos. Uma loba ruiva de olhos violáceos. Ao seu lado um lobo de pêlo cinzento e olhos cinzentos que mudavam de tom a cada movimento, e mais adiante um de pêlo escuro com olhos negros como a noite. Eles brincavam uns com os outros. “Vem”, eles disseram, “corre com a gente”. Eu corri. Senti o chão passar por baixo de minhas patas. “Um gato entre lobos”, pensei, “e eles me deixaram correr com eles”. A loba ruiva emparelhou comigo e, em falou em minha mente, sem precisar usar palavras: “Tu não és um gato. Ou melhor, tu és um gato, mas não apenas isso”. “Vamos tenta”, disse o lobo de olhos claros, “é muito parecido”. E eu tentei. Imaginei a mim mesmo correndo com patas mais fortes, uivando e usando outros olhos, arredondados. Um formigamento tomou conta de meus membros e uma vertigem dominou meus sentidos. Não sentia mais o chão. “Será que é assim que um lobo se sente? Será que estou fazendo certo?” A vertigem tornou-se mais forte, e caí no chão. Eu tinha asas dormentes e era difícil mover-me. “Uma coruja? Tu te tornaste uma coruja?”, riu o lobo de olhos escuros. E voei. Alcancei as árvores, brinquei de caçar com os lobos. Mais tarde consegui correr como um lobo. Eles me ensinaram que eu poderia ser o que quisesse e fui gato, lobo, coruja e carneiro. A loba se tornou borboleta e dançou por sobre as flores. Olhos-claros tornou-se uma ave negra e se mesclou com as sombras das árvores. Olhos-escuros tornou-se uma fera caçadora e se esquivou por entre as tocas ocultas entre os arbustos. “Nós, aqueles que podem se transformar, somos poucos”, disse a loba, “mas podemos ser reconhecidos pelos olhos. Alguns demonstram isso mais claramente, outros nem sempre podem ser facilmente reconhecidos, apenas em situações especiais. Há ainda os que não sabem que são. Mas cada um, de seu próprio modo, reflete essa centelha”.

Brincamos como filhotes brincam, a tarde toda, até nos cansarmos, até que finalmente nos deitamos, exaustos, ao redor do grande tronco. Nos levantamos, sem falar, para não quebrar o encanto. Voltamos quase em silêncio absoluto, pela ponte e pelo banhado. O sol ainda estava alto. Quando conferi no relógio, não estava nem na metade da tarde. Mas parecia que tínhamos passado horas lá. Antes de entrar na casa, olhei para trás e as árvores pareciam dizer “voltem sempre”. Uma luz crepuscular parecia vir de dentro da clareira.

Bem, essa foi a história da primeira vez que corri com eles.

Meu amigo estava bebericando o café com certeza já suficientemente frio e eu ainda assoprava meu capuccino. Observava as pessoas da rua, e, através do reflexo da vitrine, via os olhos de meu amigo. De um cinza-claro, como a luz pálida do sol de alguma terra distante no norte refletindo sobre uma geleira. Pelo reflexo, o que não dava para notar olhando diretamente, ele parecia estar usando uma roupa como uma armadura ou algo assim. Ele também é um de nós.

– Mas agora eles não me chamam mais – eu disse – É estranho. Sei que alcatéias não são eternas, pois nada é eterno, mas... pensei... que ia correr pelo menos algum tempo mais com eles. Não sei o que faço agora.

Ficamos eu e meu amigo em silêncio, observando o movimento. As pessoas na rua ainda estavam apressadas. Bebi um gole do capuccino.

– Merda! – eu disse.

– O que foi?

– O capuccino – respondi, mal humorado.

– O que tem ele?

– Ainda está quente.