1 de ago de 2011

Artefato

Tinha algo errado, sabia que tinha. Olhava meu reflexo no espelho e tinha algo errado.
Talvez eu estivesse um pouco mais magro, ou serão as olheiras? Ou minha pele com mais manchas. Eu já tinha essa verruga antes? Difícil ver na luz fraca da incandescente nua pendurada pelo fio retorcido. Será posssível que eu estou mais... desfocado?

Foi por causa daquilo. O artefato. Estava lá no lixão, como me disseram. Era perigoso, um cara que foi lá e voltou diferente, não quer falar sobre isso de jeito nenhum. Outro que dizem que passou lá perto, não dorme mais à noite, tem uma febre que não passa. Uma guria que foi lá e nunca mais foi vista.

Fui até lá. Depois que ultrapassei os escombros... nem sei descrever o que vi. Acho que meus olhos não foram capazes de conceber sejá lá o que fosse aquilo. Lembro apenas do vulto negro vagamente ovóide, manchas no meu campo de visão como interferências, frenéticas como abelhas, o zumbido insuportável.

Vomitei imediatamente e vim cambaleando para casa. Nem sei por que ruas passei.

Agora estou aqui, nesse banheiro minúsculo, na frente desse espelho mofado, um gosto amargo na boca, tentando me enxergar, não importa o quão amarela seja a luz ela não consegue vencer o turquesa desbotado do cubículo. E eu sei que vou morrer.


2 comentários:

  1. E na verdade eu que estava acostumado a ver teus desenhos agora vejo que desenhas textos...

    ResponderExcluir
  2. Uau... legal pacarai ouvir isso! =D

    ResponderExcluir